Quatro coisas que você não sabia sobre o pinhão

“Do pinheiro nasceu a pinha, da pinha nasceu o pinhão” são as primeiras frases do jingle da Festa Nacional do Pinhão que invariavelmente ecoam na minha cabeça desde a infância toda vez que chegamos a esta época do ano. Criada em Lages, terra da tal festa, tenho entre os pratos que mais gosto aqueles feitos com a semente da araucária e vibro com a chegada do dia 1º de abril: a partir de agora, está liberada a colheita e comercialização do pinhão em todo o Estado de Santa Catarina.

Mas você sabia que uma pinha leva em média dois anos para se formar? Que a araucária está na lista de espécies ameaçadas de extinção desde a década de 1990? Que os indígenas ajudaram a espalhar a floresta de araucárias pelo Estado? Depois de saber mais sobre estas e outras curiosidades a seguir, tenho certeza que você nunca mais vai olhar para aquele entreveiro com os mesmos olhos.

1 – Araucária: da abundância à ameaça de extinção

A araucária (Araucaria angustifolia) é um tipo de pinheiro comum no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, em partes do estado de São Paulo, da Argentina e Paraguai. São estas árvores imponentes e elegantes que caracterizam a chamada Floresta Ombrófila Mista (FOM) ou apenas Floresta de Araucárias.

Estima-se que, há centenas de anos, mais de 40% do território catarinense era coberto por este tipo de vegetação. A exploração madeireira, os fluxos migratórios e o crescimento das cidades reduziu a cobertura a algo entre 5% e 7% do território estadual. E hoje menos de 1% dessas florestas mantêm as características originais. Por conta disso, desde 1992 a araucária está na lista de espécies ameaçadas de extinção.

Outras curiosidades sobre a árvore: ela pode atingir até 50 metros de altura e 1,3 metro de diâmetro. Os exemplares mais jovens apresentam a copa em formato de cone alongado. Quando mais velhas, ganham a forma de taça ou candelabro.

2 – Safras abundantes a cada três anos

O pinheiro de araucária é uma árvore que demora muitos anos para se desenvolver e a formação das pinhas depende de uma série de fatores. O primeiro deles é que existem exemplares macho e fêmeas da espécie. A única forma de descobrir quem é quem é observando: se a planta liberar pólen, ela é macho. Se formar uma pinha, é fêmea.

E, claro, para que a pinha seja formada, é preciso que existam exemplares fêmeas e machos de araucárias em uma região próxima. Se não, nada feito.

Um aspecto importante é que a árvore fêmea chega a levar até 12 anos para gerar as primeiras pinhas de qualidade. E a própria pinha não nasce da noite para o dia: ela leva em média dois anos para estar no ponto ideal e a quantidade de chuvas na época da polinização pode afetar diretamente uma safra no futuro. Por conta desta complexidade toda, sabe-se que os pinheiros têm ciclos de produção, apresentando a cada três anos uma safra mais abundante (e deve ser o caso de 2018).

Várias cores no prato. #entrevero #gastronomia #pinhão #facanabota #food #cozinhacatarina

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3 – Alimento indígena

O pinhão era um dos principais alimentos da dieta dos indígenas que habitavam Santa Catarina. Pesquisadores da Embrapa afirmam que eles costumavam conservar os pinhões em cestos forrados de folhas e perfeitamente tampados. Esses cestos eram imersos em córregos pequenos e ficavam ali por cerca de um mês e meio. Passado esse período, o pinhão ficava “curtido” e era usado no preparo de sopas e bolos.

Os deslocamentos feitos pelos indígenas também se revelaram um importante meio de proliferação da araucária há centenas de anos. Ao ir de um ponto a outro em busca de alimento, perdiam-se algumas sementes pelo caminho, que acabavam florescendo e geravam novos exemplares.

Já no período colonial, os tropeiros acabaram aprendendo com os índios a consumir o pinhão e incluíram a semente em seus pratos. É desse período que nasceram clássicos da culinária serrana, como a paçoca de pinhão, o entreveiro, o arroz carreteiro, a quirera, etc.

Angustifolia. #viversc #urubici #winter #santacatarina

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4 – Estímulo à agricultura familiar

Não se sabe exatamente quantas pessoas estão envolvidas na cadeia de produção do pinhão em Santa Catarina, mas certo é que a extração da semente desempenha um importante papel na economia familiar de muitos municípios catarinenses. Painel, uma pequena cidade localizada entre São Joaquim e Lages, é uma das principais produtoras do Estado. E calcula-se ainda que a renda obtida com a exploração do pinhão é 22% maior do que com a indústria madeireira. Por isso, há esperança de que a venda das sementes acabe pressionando a redução do corte das araucárias.

Existem basicamente três formas de se colher o pinhão: uma é contar com a sorte e esperar que as pinhas caiam no chão. Outra é usar um estilingue, uma taquara ou uma escada para derrubar as pinhas. A terceira, mais arriscada e mais comum, consiste em subir nas árvores para fazer a retirada.

Antes da subida, porém, há meios de se identificar se uma pinha está madura. Se ao retirar uma lasca do tronco da árvore ela estiver vermelha ou se, ao se observarem as pinhas, elas apresentarem manchas marrons, é sinal de que a colheita está próxima.

Depois de aprender tudo isso, se você ficou curioso para provar mais pratos com pinhão, faça já a sua reserva para o almoço “Pinhão em quatro tempos” que vamos fazer aqui na nossa cozinha no dia 15/4:

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Fontes:

GODOY, RossanaCatie Bueno de. Et al. O Pinhão na culinária. Brasília (DF): Embrapa, 2013.

SILVA, Rodrigo Ozelame; STEENBOCK, Walter; MAGNANTI, José Natal; DOS REIS, Eliane. Fazeres e saberes no manejo da araucária no Planalto Serrano Catarinense. Projeto Funbio. Lages, 2015. Disponível em: http://lacaf.paginas.ufsc.br/files/2015/07/Cartilha-Pinh%C3%A3o-Final-22_071.pdf

Porque você precisa visitar a 35 ª Festa Pomerana em Pomerode

Chegamos à season finale de 2017. É época de comprar presentes de Natal, escolher o look para ficar na sala de casa, participar de 543 eventos de encerramento, pular sete ondinhas na praia na virada do ano e tudo mais.

Mas por aqui na Cozinha, além de tudo isso, estamos mais interessados mesmo em contar os dias para o início da 35ª Festa Pomerana, que rola entre os dias 10 e 21 de janeiro do ano que vem. Nós somos apaixonados pela festa, pelo clima do evento e todas as lembranças que ela nos traz. Por isso listamos abaixo alguns motivos pelo qual você precisa organizar um tempo nas suas férias e vir à festa no ano que vem:

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O clima da Pomerana:

Não confunda alhos com bugalhos. Até por questões de espaço, a Festa Pomerana não tem o porte de uma Oktoberfest e tampouco a pretensão de ser. Quem frequenta as duas festas – é o nosso caso – sabe que o clima e a proposta são bem diferentes uma da outra. Na Pomerana, espere um clima mais tranquilo, simpático, caloroso e diverso. A Oktober é ótima, mas é tudo pensado em maior escala, o que pra mim perde um pouco da graça. Sem falar que na Pomerana o público é bem diverso – em qualquer dia da semana. Tem bebê, criança, adolescente, adulto, e vózinha e vôzinho. E todo mundo dança junto, se diverte, troca ideias, brinda e faz brincadeira. É uma delícia chegar cedo, antes dos desfiles e aproveitar a festa até mais tarde. Só não espere temperaturas amenas, pois janeiro é marcado por dias muito quentes em todo o Vale do Itajaí.

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Os desfiles da Pomerana:

A Festa Pomerana tem desfiles três vezes por semana. Quintas e sextas, a partir das 19h, aos sábados, às 18h e domingos, às 9h30. É uma chance de conhecer as tradições locais de um jeito divertido. Participam normalmente grupos folclóricos, clubes de caça e tiro e outras turmas, homenageando sempre algo ligado à cultura local: cerveja, agricultura, comida e até mesmo a paixão dos moradores por antiguidades. É uma parada menos comercial e mais afetiva, que surpreende pelo capricho e pela animação.

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As competições da Pomerana:

Para os mais corajosos, a Festa Pomerana reúne uma série de competições típicas. Tem chope em metro, prova de comedores de salsicha, do lenhador e do serrador, tiro ao pássaro, tiro ao alvo, cabo de guerra e por aí vai.  O público se esbalda mesmo nas provas de lenhador e serrador e é inevitável que algum turista desavisado acabe se inscrevendo na competição sem se dar conta da dificuldade em manejar a serra.

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As cervejas e comidas da Pomerana:

Cervejas artesanais, comidas típicas deliciosas – e meu Deus, as cucas feitas no forno de lenha e vendidas na festa – são mais um atrativo para conhecer a Pomerana. Minha dica é começar o tour gastronômico aqui na Cozinha Catarina (teremos menus especiais durante o evento), seguir rumo à festa, aproveitar um desfile e depois retomar a comilança.

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A localização de Pomerode:

Eu adoro morar aqui porque a cidade tem uma localização ótima para quem vem do Litoral, do Norte do Estado e do interior (via BR-470). Principalmente para quem está na praia nesta época, é perfeitamente possível vir a Pomerode para passar o dia (conhecer o Cozinha Catarina!) e visitar a Festa Pomerana. É uma pedida para fugir da muvuca da praia, ter um dia diferente e se apaixonar. Só tem um risco: querer ficar para sempre. A chef aqui veio pela primeira vez na festa em 2011. Depois voltou em 2016 e nunca mais foi embora =)

(Todas as fotos são do Daniel Zimmermann/Divulgação)

 

 

 

 

 

 

Cinco coisas que você precisa saber ao planejar a sua ceia de Natal

Para o bem ou para o mal, 2017 está acabando e é inevitável que o assunto ceia de Natal comece a pipocar nos grupos de família do WhatsApp. Se fazer uma refeição em família já tem todo um significado, nessas épocas de festa o ato se torna ainda mais simbólico – mesmo que você não se considere uma pessoa religiosa (o que é o meu caso, por exemplo).

Na minha família costumamos passar a noite do dia 24 de dezembro juntos, na casa da minha avó materna. A ceia por lá é clássica, com muitos pratos! Ave recheada, pernil suíno, lasanha, salpicão, arroz à grega, farofa. Aquele menu bem “A Grande Família” e que envolve quase todo mundo nas preparações.

Tudo isso é muito lindo, mas dá trabalho e sempre rola algum stress. Para evitar esse drama todo e garantir que a sua ceia esse ano seja feita da forma mais tranquila e prazerosa possível, separei cinco dicas que podem te ajudar nesse momento:

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1 – Defina um cardápio com antecedência e distribua tarefas:

Se a ceia da sua família é para muita gente, aproveite o famigerado grupo do WhatsApp para definir um cardápio com antecedência (eu diria que agora é o momento hehehe) e distribua tarefas. Sempre tem algum parente que manda bem na sobremesa, outro faz um prato que é sucesso, outra quer testar algo novo. Pense em como cada um pode contribuir e se os pratos combinam entre si.

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2 – Abuse das frutas…

Sou muito fã das combinações de carnes com frutas. Um molho de laranja, abacaxi ou frutas vermelhas vai muito bem com aquele peru, uma carne de porco. Quebra um pouco a monotonia, evita com que a carne fique seca e ainda dá um charme no prato. Uma farofa com banana também fica demais! Ou pense em sobremesas leves, com frutas da época e que amenizem um pouco o estrago calórico da ceia =)

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3 – …e dos temperos também

Eu tenho os dois pés atrás com essas carnes que a gente compra no mercado e que já vêm temperadas. Fica tudo com gosto de mais do mesmo, perde a graça total comer algo assim. Sei que, no caso das aves, é raríssimo encontrar uma não temperada. Minha dica, nesse caso, é tirar o excesso de tempero e preparar uma boa marinada com alho, cebola, louro, alho poró, salsão, pimenta do reino, sal, vinho branco e suco de fruta. A mesma marinada vale para uma carne suína, tá.

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4 – Opte por ingredientes locais

Uma ceia de Natal clássica normalmente conta com uma boa leva de produtos importados: bacalhau, cerejas, nozes, castanhas. Tudo muito lindo e gostoso. Mas que tal inovar e dar uma volta na feira à procura de produtos locais que possam ser usados na ceia? Certo que você vai encontrar várias opções que podem te surpreender. Sem falar que ao investir em produtos da região você movimenta a economia local e ainda poupa uma graninha – os importados estão sujeitos à variação monetária e não são exatamente baratos, né?

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5 – Pense em reaproveitar as sobras

Pesquisas apontam que em cada 10 ceias realizadas no Brasil durante o Natal, 10 apresentam sobras no dia seguinte (Brincadeira com fundo de verdade). Então, em vez de só reaquecer tudo no dia seguinte, que tal fazer um novo prato? A sobra de carne pode render um risoto, um molho, uma salada diferentona e se transforma fácil em acompanhamento, por exemplo.

Com essas dicas, sua ceia tem tudo para ser um sucesso neste Natal. Mas se você ainda tem dúvidas ou precisa de uma ajuda extra para planejar e montar o jantar, mande um e-mail, um Whats, deixe seu comentário. Posso te ajudar a criar e a cozinhar algo maravilhoso e cheio de carinho ❤

 

“O barraco tá florido hoje!”

Meu avô costumava dizer essa frase sempre que a casa onde morava se enchia de visitas. Netas, filho, parentes, amigos, irmãs. Ele gostava mesmo de ver gente por ali, disposta a jogar conversa fora e se divertir.

Receber pessoas era algo tão trivial da vida dos meus avós que, durante décadas, a casa era apenas “protegida” por uma grade baixa, onde eu e minha irmã costumávamos sentar e brincar. A porta ficava destrancada. Quando alguém tocava a campanhia, era sinal de que ela não estava muito habituada ao modus operandi do local. Ali, a regra era chegar e se sentir bem. Descer até a cozinha, sentar no baú que servia como estoque de trigo e bater um papo, acompanhado de um café e bananinhas quentinhas.

Receber pessoas é um costume é tão forte em mim que hoje não poderia ser diferente com a Cozinha Catarina. Cada cliente que vem é na verdade um amigo e o clima é tão gostoso que me lembra tanto esses dias de visitas na casa da vó.

Já teve gente que veio porque convidei. Teve turista que veio e se encantou. Ou quem comemorou aniversário de casamento (como o casal da foto que ilustra este post), quem estava morrendo de curiosidade de ver a casa, ou nos conhecer pessoalmente.

Cada jantar, cada almoço, se tornam uma história, um capítulo desta cozinha. Que agora passo a escrever aqui também a vocês.

Um beijo,

Larissa

Na galeria abaixo, você confere quem já esteve por aqui na Cozinha: